segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Violencia no Brasil? Não apenas, mas na Bahia!


07/02/2011
 às 15:38

Beira-Mar: ainda no comando de um negócio milionário. E agora é candidato a acadêmico também!

Prender bandido é garantia de que ele pare de molestar a sociedade? Não é, não! Também é preciso haver leis e procedimentos que o impeçam de continuar na atividade criminosa. A VEJA desta semana traz na capa, sobre a foto de Fernandinho Beira-Mar, as palavras: “Preso e ainda no comando”. Reportagem de Laura Dinis demonstra que Beira-Mar, chefão do Comando Vermelho, trancafiado há mais de 10 anos em presídio de segurança máxima, continua a ser o mais poderoso líder do tráfico de drogas no país. De sua cela, informa Laura, manda comprar e vender droga, seqüestrar e matar. Tudo isso com direito a Rivotril, para não ter insônia, creme de barbear especial e, claro!, visita íntima — ao menos até a mulher, Jaqueline, ser presa.
Está no presídio federal de Catanduvas, no Paraná. Brechas legais permitem que continue a traficar droga do Paraguai para o Brasil. Também ele, a exemplo de Marcola, do PCC, é candidato a bandido intelectual. Já leu mais do que alguns professores da USP, que não pegam num livro nem sob ameaça de Regime Disciplinar Diferenciado. Leiam um trecho da reportagem:
“Em Catanduvas, onde se encontra desde o ano passado, Beira-Mar, quando não está ocupado com os negócios nem ordenando quebra de cadeias (como fez em Bangu l, em 2002) ou ataques de vandalismo (como os que resultaram no incêndio de 96 carros no Rio em 2010), recebe advogados e visitas da irmã Alessandra. Também lê bastante. Entre novembro e dezembro, dedicou seu tempo a seis volumes: “Lições Preliminares de Direito, de Miguel Reale; “1822″, de Laurentino Gomes; “Uma Breve História do Século XX”, de Geoffrey Blainey; “História do Brasil - Uma Interpretação”, de Adriana Lopez e Carlos Guilherme Mota; “A Montanha e o Rio”, de Da Chen; e “Praticando o Poder do Agora”, de Eckhart Tolle. Neste ano, planeja voltar a estudar. Ele decidiu fazer um curso por correspondência sobre execução penal pela Faculdade Internacional de Cursos Livres e já está com o primeiro livro na cela.
O traficante sabe que, ao menos nos próximos vinte anos, continuará vendo o sol nascer quadrado. Diante do fato consumado, esforça-se para viver da melhor forma possível dentro da estrutura que montou - e que, além de casa, comida e roupa lavada, inclui poder e dinheiro. Nada mau para um bandido. Já para a sociedade, não seria exagero dizer que tanto faz Beira-Mar preso como Beira-Mar livre. O mal que ele produz, até agora, o estado foi incapaz de aprisionar.”
Leiam a íntegra da reportagem na VEJA desta semana. É impressionante!
Por Reinaldo Azevedo



07/02/2011
 às 22:16

A espantosa violência na Bahia. Alguém está surpreso? Não os leitores deste blog!

Como muitos de vocês devem ter visto, houve 25 assassinatos em Salvador neste fim de semana. Alguém está surpreso? O índice de homicídios da cidade é de 61 por 100 mil. Um escândalo! Em São Paulo, a maior cidade do Brasil e uma das maiores do mundo, está abaixo de 10, o que caracteriza, segundo a Organização Mundial da Saúde, violência não-epidêmica. Alguém está surpreso com o que acontece na Bahia?  Os leitores deste blog não estão.
Em abril do ano passado, foram divulgados os dados sobre o Mapa da Violência, com índices de homicídio de todas as capitais entre 1997 e 2007. Escrevi largamente a respeito. Com os dados do mapa, eu mesmo me encarreguei de fazer um cruzamento, que deu um trabalhão filho da mãe: a evolução dos índices entre 2002 (último ano do governo FHC) e 2007. Revejam a tabela. Volto em seguida.
tabela-homicidios4
A Bahia tinha, em 2002, 13 homicídios por 100 mil habitantes; em 2007, já eram 25,7 — um salto de 97%! Houve aumento significativo de homicídios em sete dos nove estados do Nordeste. Escrevi então:
O trabalho não faz o cotejamento dos números de 2002 com os de 2007 — os últimos disponíveis. Esse cruzamento é meu, extraído do quadro geral que traz dados desde 1997. Já há, pois, uma série histórica de dez anos. Sim, fiz tal comparação porque quis saber o que aconteceu com o número de homicídios em cinco anos de governo Lula, aqueles da grande revolução como “nunca antes na história destepaiz”. Escolhi tal cruzamento de dados também porque o presidente da República já disse em mais de uma oportunidade que prefere fazer escolas a fazer presídios, como se fossem coisas excludentes ou permutáveis. Não só isso: já afirmou que o que faltou ao bandido foi oportunidade, por culpa, claro!, de todos os governos que o antecederam.
Vejam lá a última linha da tabela. Entre 2002 e 2007, houve uma queda de 11,57% no número de homicídios por cem mil habitantes. QUEM PODE SE ORGULHAR DISSO? RESPONDO: SÃO PAULO!!!
Distribuição de renda e violência
Vejam a tragédia da violência no Nordeste. Dos nove estados, houve uma pequena redução de homicídios em Pernambuco (embora os números do Estado sejam escandalosos) e no Sergipe. Nos demais, o número de homicídios teve um aumento brutal. Na Bahia, Maranhão, Rio Grande do Norte e Alagoas, o crescimento é escandaloso. Das 27 unidades da federação, houve uma redução - no mais das vezes, pequena - em apenas 12.
Então a economia não cresceu no período, especialmente no Nordeste? Não é esta a região que concentra hoje o maior número de beneficiários do Bolsa Família? Há dados que chegam a ser desmoralizantes para os trouxas que pretendem vincular maior crescimento da economia e maior assistencialismo à redução da violência.
Peguemos o caso da Bahia entre 1997 e 2002, aquele tempo em que, segundo Lula, não havia Brasil. Em 1997, o estado teve 15,5 mortos por 100 mil; em 2002, 13. Redução de 16%. Durante a revolução lulista, o número saltou para 25,7 por 100 mil: aumento de 97,7%!!! Será que o crescimento e o assistencialismo fazem crescer o número de homicídios? Ora, não sejamos estúpidos!
Os números demonstram de forma cabal que não há uma relação de causa e efeito entre crescimento e distribuição de renda e violência - e o homicídio é certamente a sua pior manifestação não é mesmo?
Por Reinaldo Azevedo

Imitem Cabral, senhores governadores, e espalhem bandidos! Vocês também merecem reportagens elogiosas na TV!

Imitem Cabral, senhores governadores, e espalhem bandidos! Vocês também merecem reportagens elogiosas na TV!

07/02/2011

às 14:44

Imitem Cabral, senhores governadores, e espalhem bandidos! Vocês também merecem reportagens elogiosas na TV!

Eu não sei onde os demais governadores de Estado estão com a cabeça que não seguem o elogiadíssimo modelo “espalha-bandido” de Sérgio Cabral, do Rio, e de seu impressionante secretário de Segurança — cuja candidatura ao Prêmio Nobel da Paz já tem até publicitário contratado. Eu juro! Não é brincadeira!

Ontem, a polícia do Rio, com a ajuda de helicópteros e blindados da Marinha, ocuparam nove favelas da região central da capital. O anúncio foi feito com antecedência: “Fujam porque estamos chegando; a gente está indo, hein…” Homens do Bope foram adiante, destemidos, enfrentando… ninguém! A bandidagem, que não é burra nem nada, já tinha dado no pé. Apreendeu-se uma quantidade irrisória de droga.

Vejam como Jornal da Dez, da GloboNews, noticiou o evento.

Voltei
Como viram, Beltrame, com a sua apreensão muito particular da língua, explicou:
“Prioritariamente, o mais importante (sic) é obter este território, sem aumentar estatísticas de bala perdida, sem aumentar estatísticas de auto de resistência, sem aumentar estatísticas de homicídio ou de ferimento de qualquer pessoa civil. A nossa preocupação é com a população!”

É um humanista! Ele está dizendo, na prática, que enfrentar e prender bandidos é uma prática que contraria os interesses da… população. O Rio caminha a passos largos para legalizar o crime. Não sou eu que estou dizendo, não! São suas autoridades. Isso que Beltrame chama de “prioritariamente o mais importante” se tornou o objetivo único. Desde que bandido pare de desfilar com arma pelos becos e vielas, tudo bem, o resto pode.

Com a ajuda da reportagem, que traduz a intenção da polícia, o coronel Mário Sérgio Duarte, comandante da Polícia Militar, explica o que vai acontecer com os bandidos:
“Esses criminosos, quando fogem para outras áreas, se tornam forasteiros. Então, a própria população se torna hostil à sua presença. Nós vamos realizar operações nessas áreas, mas principalmente naquelas onde receberão UPP, no futuro, com certeza, nós iremos alcançá-los”.

Ah, bom! Agora está tudo explicado! Uma pergunta: onde está aquele exército de bandidos que fugiu da Vila Cruzeiro para o Alemão e, do Alemão, sabe-se lá para onde?

Um estado como São Paulo, que tem 10,47 homicídios por 100 mil habitantes, tem de aprender que a sua mania de prender bandido vai contra os interesses da população. O certo é adotar a política humanista do Rio, onde há 30 por 100 mil… Por enquanto, é claro! No melhor dos mundos, a bandidagem do Rio migra para outros estados.

Beltrame e Sérgio Cabral mereceriam é o Nobel de Marketing! O interior do Rio e os estados que lhe fazem fronteira que se cuidem. Como os bandidos das favelas da capital não são presos, eles têm de ir para algum lugar, não? E têm de continuar a ganhar a vida. Cabral vai “pacificar” a cidade para a Copa do Mundo. Há algo de muito errado nessa história. O “modelo” Belatrame-Cabral aponta para uma de duas coisas: ou exporta traficante para outros estados ou, então, faz um acordo com eles. Convenham: há uma boa possibilidade de que não tenham fugido. Fez-se um pacto de paz e pronto!

O preço da cocaína no Rio não subiu um centavo. Segundo as leis de mercado, isso significa que o espantoso sucesso da política de segurança de Sérgio Cabral nem arranhou o tráfico. Como dirá Beltrame, “prioritariamente, o mais importante” é maquiar a cidade para a Copa do Mundo.

Sigam o modelo de Cabral, senhores governadores! Vocês também merecem reportagens elogiosas na TV!

Por Reinaldo Azevedo

07/02/2011

às 15:14

Beltrame descobriu as virtudes do diálogo com a Irmandade Carioca

Vivemos a era da negociação com “outro lado”, não é mesmo? Descobrimos que os nossos valores estão errados e que, em boa parte, “eles”, os que eventualmente querem nos destruir, só têm tal intento por culpa nossa. Antes se fazia o “mea culpa” diante do Divino; os tempos pedem a genuflexão diante de terroristas e bandidos. Bem mandou o leitor Mac z quando sugeriu que a Polícia de Beltrame descobriu as virtudes da negociação com a “Irmandade Carioca”. Na mosca! Afinal, ela também demonstra ser, na maioria, composta de moderados.

Por Reinaldo Azevedo

07/02/2011

às 21:17

As UPPs do Rio são tão fantásticas que diluem até a lógica. Ou: Beltrame resolveu tirar um sarrinho da nossa cara!

Depois de apresentar uma reportagem sobre a explosão de homicídios na Bahia (já falo a respeito), o Jornal Nacional também trouxe a reportagem sobre a tal ocupação pacífica de favelas promovida ontem pela polícia do Rio para a futura instalação de UPPs.

Segundo o Jornal, já são mais de 600 mil pessoas beneficiadas por esse tipo de policiamento. Muito bom! E, como se sabe, isso se deu quase sem prender bandidos. É o chamado “Milagre de Cabral”, de que José Mariano Beltrame, secretário de Segurança, é o intercessor.

Como a polícia avisa com antecedência que haverá a ocupação, e não se cria nenhum esquema para eventualmente prender os traficantes em fuga ou apreender drogas, algumas pessoas que ainda não perderam o sendo de ridículo e o apreço pela lógica se perguntam: “Mas para onde vão os bandidos?”

Com ar involuntariamente maroto. Beltrame apareceu há pouco no Jornal Nacional e tentou responder. Leiam com atenção:
“Dizem que há esta migração [de bandidos das áreas ocupadas para outra]. Se há esta migração, eles ainda não repercutem nos índices de criminalidade”.

É espantoso! Acompanhem:
- as UPPS só serão instaladas nas comunidades porque se considera que estão dominadas pelo narcotráfico;
- se estão dominadas pelo narcotráfico, é porque existem narcotraficantes;
- se narcotraficantes estão lá e se a política não encontra ninguém, das duas uma:
a) ou eles migraram;
b) ou ficaram lá e não foram presos.

Assim, na melhor das hipóteses, Beltrame lhes deu a chance de fugir; na pior, sua polícia fez um acordo com a bandidagem.

Ora, voltemo-nos para a sua fala: “Dizem que houve esta migração (…) Se há esta migração (…)”. Qual é a dúvida de Beltrame? Não tendo havido a migração, de novo, das duas uma:
a) ou não havia bandidos lá, e isso está descartado;
b) ou havia, lá eles ficaram e agora estão mais felizes do que antes porque, então, fazem o tráfico sob a proteção da polícia.

Nunca houve mistificação como essa! E ela vai se estender até a Copa do Mundo pelo menos. Na pior das hipóteses, até a Olimpíada. Pode até ser que os índices de criminalidade do Rio diminuam, mas os estados fronteiriços terão de fechar suas fronteiras. Aliás, seria conveniente que começassem a pensar em algo parecido desde já. No melhor dos mundos, o Milagre de Cabral expulsa os bandidos para outros estados; nem presídios precisa construir!

Por Reinaldo Azevedo

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Olavo de Carvalho comenta a votação do Tiririca

Sistema COC e Universidades. (prof. Olavo de Carvalho)

PANAMERICANO 01

Olavo de Carvalho comenta o caso Cesare Battisti

As FARC e o silêncio obsequioso

As FARC e o silêncio obsequioso
Por Janer Cristaldo7 de Junho de 2002




Tentando chegar a uma definição aceita universalmente sobre o que seja terror, a ONU até hoje não chegou a nenhuma. Ao tentar uma definição, esbarra numa parede, os países muçulmanos. Se estes países não concordam sobre o que seja terrorismo, chegaram a um consenso sobre o que não é terrorismo: qualquer coisa que se inclua na luta palestina. Trocando em miúdos: um palestino que se enrola em bombas e se explode em meio a civis, velhos, mulheres e crianças, não pode ser definido como terrorista. Porque os árabes não querem.
Se o Ocidente tem conceitos precisos sobre o que seja terror, a Suécia fez uma bela presepada à União Européia no mês passado. Os quinze países da UE pretendiam incluir as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), guerrilha marxista colombiana, na lista de organizações terroristas. Os suecos alegaram que não devem fazer parte da lista organizações que estejam em processo de negociação ou diálogo com seus governos. Ou seja, você pode explodir carros-bomba, matar, seqüestrar, mas não será considerado terrorista enquanto se dispuser a dialogar com as vítimas. Porque os suecos não querem.
A decisão dos suecos foi amplamente divulgada na imprensa internacional e brasileira. Fere a delicada psique das esquerdas associar marxismo a terrorismo. Se nossos jornais se apressaram a divulgar o veto nórdico, há um silêncio obsequioso quando se trata de trazer ao leitor documentos que associem as Farc ao terror. Numa época em que até mesmo órgãos como O Globo e o Estadão abrem colunas para velhos bolcheviques, pouco se pode esperar dos demais jornais, que se pretendem de esquerda ou que pelo menos com as esquerdas simpatizam. Torna-se então inteligível mas nem por isso justificável o silêncio em torno a temas que possam prejudicar o PT.
Embora o partido atualmente as negue, são notórias suas relações com a guerrilha que há décadas vem destruindo a Colômbia. Seus representantes são recebidos com tapete vermelho pelo governo petista gaúcho e fazem palestras em universidades e escolas de prefeituras geridas pelo PT. Se alguém ousa afirmar que as Farc vivem do narcotráfico, não falta um militante indignado para dizer que tais denúncias não passam de estratégia do Estados Unidos para invadir, primeiro a Colômbia, e depois o continente.
O leitor já deve ter notado a escassa presença, nas páginas dos jornais, do narcotraficante Luiz Fernando da Costa, mais conhecido por Fernandinho Beira-Mar. E não é por falta de notícias. Preso em Brasília desde abril do ano passado, Fernandinho aceitou reunir-se com agentes da DEA (Drug Enforcement Administration) e falou de suas relações com a guerrilha colombiana. A gravação desta confissão, pela sua importância, tornou-se a peça-chave que permitiu aos Estados Unidos pedir a extradição de três guerrilheiros das Farc e três narcotraficantes brasileiros, entre eles Fernandinho. Foi publicada, há questão de um mês, na revista colombiana Cambio, dirigida por Gabriel Garcia Márquez. Você pode lê-la, na íntegra, aqui. Na imprensa brasileira, nem um pio sobre este documento.
Em correspondência com meus interlocutores, costumo afirmar que as gentes já não lembram de fatos ocorridos há dez anos. Urge uma errata: não lembram de fatos ocorridos há dois meses. Se o PT hoje nega qualquer relação com as Farc, há poucas semanas elas eram publicamente defendidas pelos militantes. Não bastassem as boas relações do governo gaúcho com a narcoguerrilha colombiana, em março passado, líderes petistas de Ribeirão Preto, ligados ao prefeito Antônio Palocci Filho, coordenador do programa de governo de Luiz Inácio Lula da Silva, anunciaram um comitê pró-Farc no município. Entre as funções do Comitê de Solidariedade ao Povo Colombiano e aos Movimentos de Libertação Nacional estariam colher assinaturas pró-guerrilha e defender as posições do grupo no Brasil. "Precisamos difundir e abrir comitês das Farc no mundo inteiro sobre os problemas que ocorrem naquele país", disse Beto Cangussú, vereador petista. Para selar a união, houve uma reunião em Ribeirão Preto entre o ex-vereador Leopoldo Paulino, o proponente do comitê, e Olivério Medina, porta-voz informal da narcoguerrilha no Brasil, que chegou a ser preso em 2000 em Foz do Iguaçu, a pedido do governo colombiano, acusado de atividades terroristas.
Fernandinho Beira-Mar pagava dois milhões de pesos aos camponeses pela coca, por 600 quilos por semana, e às Farc mais um milhão por cada quilo, para cristalizá-la. Vendia o quilo de cocaína por U$ 3.500 no Brasil. A operação exigia um vôo que custava U$ 15.000, mais U$ 15.000 pelo aluguel da pista de aterrissagem. Mais U$ 25.000 para o piloto e U$ 5.000 para o co-piloto. Fernandinho, que também fornecia munição à guerrilha marxista, chegou a entregar-lhes 150 mil caixas de balas, com 20 balas cada uma. Segundo o narcotraficante brasileiro, as Farc não têm ideologia, Estão ali pela grana, se tornaram capitalistas e só querem a grana, a grana, a grana....
O ex-vereador Leopoldo Paulino pensa diferente. Não é a eleição que vai resolver, é a revolução. Hoje no Brasil não há condição de fazer uma revolução armada, mas na Colômbia não é assim. Eles têm um exército organizado". Este exército redentor são as Farc, é claro.
ONU, árabes ou suecos podem permitir-se uma posição dúbia. Ser benevolente com o terror distante é fácil. Mais difícil é aceitá-lo quando se vive sob sua mira. O PT, herdeiro das mais sinistras ditaduras do século, sente-se naturalmente atraído pela narcoguerrilha marxista. Tenta então desvencilhar-se do aliado inconveniente. Ocorre que o terror está em seu DNA. E produz reflexos condicionados.
Todo leitor adulto deve lembrar-se do belíssimo filme de Kubrick, Dr. Strangelove. No papel-título, temos um cientista alemão paraplégico refugiado nos Estados Unidos, cujo braço direito conserva ainda reflexos dos dias do Reich. Esporadicamente, o braço se ergue em saudação nazista, e Strangelove precisa segurá-lo com a mão esquerda. É o que ocorre com os petistas. Podem reivindicar os melhores propósitos, fazer juras de bom comportamento, mas volta e meia o braço totalitário não resiste e saúda o terror. Como aconteceu na semana passada, quando o PT, au grand complet, prestou homenagens de herói ao terrorista João Amazonas.
Não é conveniente, em ano eleitoral, falar de Fernandinho. Felizmente, vivemos dias de Internet, onde sempre há uma brecha para conjurar o silêncio obsequioso da grande imprensa.

FÓRMULA DA MINHA COMPOSIÇÃO IDEOLÓGICA

FÓRMULA DA MINHA COMPOSIÇÃO IDEOLÓGICA
Olavo de Carvalho

Alguns leitores cobram-me uma autodefinição ideológica. Outros, mais solícitos, apressam-se em fazê-la por mim, catalogando-me seja como neoliberal, seja como anarquista, seja como conservador, seja até como fascista e o diabo a quatro. Surdo às demandas dos primeiros, que me parecem artificiais e de puro capricho, não posso, no entanto, permanecer insensível ante os esforços dos segundos, que traduzem, a olhos vistos, um anseio genuíno e profundo de suas almas, e, mais que um anseio, uma necessidade vital absoluta, a qual, se não atendida, acaba por se atender a si mesma como um estômago de pobre que, desprovido de alimento, se autodigere mediante uma úlcera. Essas pessoas, com efeito, não sabendo o que fazer de suas vidas sem um catálogo ideológico de tudo, e não dispondo de informações cabais sobre a minha personalidade política, acabam por construí-la com pedaços de si mesmas, colhidos nosbas fonds dos seus respectivos subconscientes e constituídos substancialmente de temores, suspeitas, fantasias macabras e uma vasta coleção de demônios.
Não suportando mais ver tanto sofrimento inútil, nem me conformando com tamanho desperdício de criatividade que mais utilmente se empregaria no hobby literário, ao qual algumas dessas criaturas aliás se dedicam nas horas vagas de seu penoso mister catalogante, decido-me, pois, a fornecer enfim meu perfil ideológico, e não apenas meu perfil de ambos os lados mas também meu auto-retrato de frente e de costas. Direi, em suma, o que vocês querem saber, que não é necessariamente o que vocês querem ouvir.
Infelizmente, não posso me definir com uma só palavra, como seria do gosto de tantos, pela simples razão de que não acredito haver algum conceito abrangente capaz de juntar, numa só unidade compacta, as diferentes atitudes e opiniões de um indivíduo ante os diversos setores da vida. O tipo assim descrito teria a coerência em bloco de uma caricatura, de um Idealtypusweberiano ou de um arquétipo platônico, mas nada teria de um ser humano1.
Toda fórmula ideológica pessoal compõe-se de um amálgama de preferências e repulsas variadas, umas referentes à política, outras à moral, outras à religião, outras à vida econômica e assim por diante. Esses vários elementos não formam quase nunca uma unidade coerente, embora tendam à coerência como numa assíntota, aproximando-se dela sem jamais alcançá-la. Tal esforço de coerenciação denomina-se, precisamente, filosofia, uma atividade que, pela própria natureza, é constante e sempre inacabada.
Não podendo, portanto, me definir com um termo unívoco, limito-me a dar uma lista dos vários elementos que compõem, como podem, minha ideologia pessoal.
1. Em economia, sou francamente liberal. Acho que a economia de mercado não só é eficaz, mas é intrinsecamente boa do ponto de vista moral, e que a concorrência é saudável para todos. Há dois tipos de pessoas que não gostam da concorrência: os comunistas e os monopolistas. Às vezes é difícil distingui-los. Quem foi que disse: "A concorrência é um pecado"? O Dr. Leonardo Boff adoraria ter dito, mas não disse. Quem disse foi John D. Rockefeller. E, como se vê pelo episódio bíblico de Marta e Maria (ou de Esaú e Jacó), a concorrência não é pecado nenhum. Pecado é um sujeito ser John D. Rockefeller ou o Dr. Leonardo Boff.
Como liberal sou contra o socialismo e contra toda forma de Estado corporativo, seja de estilo mussoliniano, seja católico. Acredito, com Sto. Tomás, que há um preço justo para cada coisa. Mas, como observavam os conimbricenses, o número de variáveis a levar em conta no cálculo do preço justo é ilimitado, e a única maneira de encontrá-lo é deixar que as pessoas discutam livremente e admitir que, de algum modo, vox populi, vox Dei. O Estado existe apenas para impedir que os concorrentes se comam vivos, para assegurar as condições logísticas da prática do liberalismo e para, last not leastamparar in extremis quem não tenha a mínima condição de concorrer no mercado.
2. Em religião, sou tradicionalista e conservador. Não, não sou eu que sou assim. Religião é tradição e conservação. É o fator de imutabilidade que faz contraponto à História, e sem o qual o movimento não seria sequer percebido. Por isto, o Concílio Vaticano II podia ter mexido em tudo, menos no essencial: o rito e a doutrina. Ao contrário, ele virou o essencial de pernas para o ar, apegando-se idolatricamente à imutabilidade do secundário, como por exemplo o celibato dos padres. Tendo invertido o senso das proporções, o Concílio tornou a Igreja uma instituição insensata e ridícula, que condena seus próprios santos enquanto se prosterna ante os inimigos. Mas não defendo a imutabilidade só do Catolicismo: acharia uma insensatez mudar uma só palavra do Corão, da Torá ou dos Vedas.
3. Em moral, sou anarquista. Acredito que há princípios morais universais, permanentes, que a inteligência discerne por baixo da variação acidental das normas e costumes, e acredito, enfim, que há o certo e o errado. Mas, por isso mesmo, impor o certo é errado, a não ser em caso de vida ou morte. O sujeito que faz o certo só por obediência e sem compreendê-lo acaba por transformá-lo no errado. "Experimentai de tudo e ficai com o que é bom", recomendava S. Paulo Apóstolo, meu amado guru. É uma questão de viver e aprender. Mas como podemos aprender, se um tirano paternalista nos proíbe de errar? Por isto deve haver a mais ampla liberdade de escolha e de conduta, e a autoridade religiosa deve se limitar a ensinar o certo, com toda a paciência, sem tentar expulsar o pecado do mundo à força. E se nem os religiosos, que por sua dedicação à vida interior têm autoridade para falar dessas coisas, devem impor regras morais à força, muito menos deve fazê-lo o Estado, que afinal não passa de uma gerência administrativa, a coisa mais mundana e prosaica que existe. As leis devem fundar-se apenas em considerações práticas de ordem, segurança e interesse coletivo, muito corriqueiras, e jamais em motivos pretensamente elevados de ética, que terminam por fazer da burocracia estatal um novo clero, e do Código Penal um novo Decálogo. A coisa mais nojenta que existe é a metafísica estatal.
4. Em educação, sou mais anarquista ainda: não acredito em ensino obrigatório do que quer que seja e noto que a expansão hipertrófica do sistema de ensino, público ou privado, só cria novas formas de analfabetismo. Acho que a educação deveria ser livre, que cada um deve buscá-la na medida de suas necessidades, e considero uma monstruosidade totalitária que, após proclamá-la um direito, o Estado moderno faça dela um direito obrigatório. Acho aliás que o mesmo se dá com muitos outros "direitos", que você acaba exercendo a muque ou sob pena de prisão. Era um absurdo que as mulheres não pudessem trabalhar, mas é um absurdo maior ainda que, obrigadas a trabalhar, não possam ficar em casa para criar seus filhos. Complementarmente, é um crime que se obrigue uma criança a fazer trabalho de adulto, mas é um crime maior ainda que ela seja impedida de ganhar seu próprio dinheiro, fazendo, se quiser, um trabalho que esteja à altura de suas capacidades e que, no fim, há de educá-la muito mais do que qualquer escola. Tornei-me jornalista ainda quase um menino, aos dezessete anos, e aprendi na redação o que três décadas de escola não me ensinariam. Esta porcaria de governo que temos hoje me tiraria de lá e me poria numa escola para aprender português nos livros de Paulo Coelho.
5. Em política internacional, e sobretudo em comércio internacional, sou radicalmente nacionalista, protecionista e tudo o mais que os globalistas odeiam. Isso não quer dizer que eu seja contra a globalização da economia. Muito menos há aí qualquer contradição com a crença liberal acima subscrita. Apenas, entendo que globalismo não é o mesmo que monopolismo das grandes multinacionais, e que, assim como estas se associam umas com as outras – e com certos Estados – para ficar mais fortes, é justo que o empresário nacional, sobretudo o pequeno, busque apoio do seu próprio governo para não ser esmagado pelos monopólios internacionais. Aí a intervenção do Estado não é contra o liberalismo ou a concorrência: ela é, ao contrário, o fator equilibrante que impede a extinção do liberalismo e sua substituição pelo monopolismo. O mais detestável dos socialismos é o socialismo dos ricos.
6. Em filosofia, sou realista, meus gurus sendo Aristóteles, Sto. Tomás, Leibniz, Husserl e Xavier Zubiri, todos os quais afirmam o poder humano de conhecer as coisas como são. Husserl e Zubiri, no meu entender, foram os únicos filósofos realmente grandes deste século, e perto deles um Foucault ou um Deleuze são apenas meninos de escola. Acho que marxismo, estruturalismo, desconstrucionismo, psicanálise, neo-relativismo, neopositivismo, etc. etc., são filosofias boas para analfabetos funcionais e portanto atendem a uma autêntica necessidade social criada pela rápida expansão do ensino universitário, onde é preciso fabricar professores cada vez mais rápido e cada vez mais barato. Ler o Dr. Freud, Poulantzas, La Pensée Sauvage ou Richard Rorty já é esforço bastante para essa gente, que morreria de congestão cerebral após meia página de Zubiri ou das Investigações Lógicas.
7. Em História, acredito na relatividade do progresso e acho que todo progresso se paga com perdas que nem sempre valem a pena. É claro que aprecio os computadores e os direitos constitucionais, mas penso nos milhões de vidas humanas que foram sacrificadas no altar do progresso e me pergunto se nós, sobreviventes, não saímos diminuídos moralmente pelos próprios benefícios que recebemos2. Um índio, que anda pelado no meio do Xingu, não tem Internet mas não carrega, nas costas, o peso de tantos pecados históricos. O progresso, sem dúvida, é vantajoso. Mas não tem a dignidade de um genuíno ideal moral. É apenas uma conveniência prática, e quando procura se enfeitar com uma ideologia autoglorificadora, com as pompas de uma utopia futurista, sobretudo "científica", aí, meus filhos, é que ele se encarna num Robespierre, num Lênin, num Hitler, num Mao, num desses monstros que os séculos antigos não poderiam sequer imaginar. Gosto do progresso, não nego. Mas não sou seu entusiasta e não sacrificaria, por ele, a vida de um cabrito. O progresso tanto mais vale quanto menos custa.
8. Em todos os domínios e circunstâncias, sou contra o governo mundial. Ninguém deve governar o mundo, senão Deus. A ONU, a Unesco, o Banco Mundial, as grandes corporações multinacionais, a Internacional Socialista e todas as entidades do gênero são para mim a encarnação mesma da megalomania e do desejo ilimitado de poder. Isso não quer dizer que os Estados nacionais sejam anjinhos, pois, como já informava a Bíblia, "os anjos das nações são demônios". Quer dizer apenas que o chefe mundial dos demônios é muito pior do que todos eles somados.
Que as pessoas acostumadas a identificar globalização e liberalismo não vejam aí contradição alguma. A unificação política e administrativa do mundo não beneficiará o liberalismo, mas o extinguirá para sempre, instituindo a "Terceira Via". Que é a Terceira Via? É aquela síntese de capitalismo e socialismo que, resguardando a liberdade de movimento para as grandes empresas que apoiam o governo, planeja, controla e determina tudo o mais. Essa síntese não é nova. Surgiu na década de 20 e se chama fascismo. Naquela época o fascismo era coisa de escala nacional. Hoje querem fazer um fascismo mundial e, para disfarçar, fazem campanhas alarmistas contra os remanescentes do fascismo old style, como Le Pen e o Dr. Enéias, os mais autênticos bois-de-piranha da boiada universal. Para enfrentar o governo mundial é preciso criar um novo nacionalismo, liberal, democrático, inteligente, capaz de tomar parte no jogo da globalização sem deixar que transformem nosso país numa província ou numa colônia de férias para turistas sexuais. E para isso é preciso resistir ao maquiavélico jogo duplo que, de um lado, exaltando falsamente o liberalismo, tudo submete a um planejamento global e, de outro, incentivando maliciosamente reivindicações socialistas malucas e toda sorte de ressentimentos doentios, divide o povo, desorienta os intelectuais, debilita o Estado brasileiro e nos deixa, a todos, à mercê do poder multinacional.
Foi para atender aos ditames dessa minha ideologia compósita, segundo as várias exigências que me parecessem mais razoáveis no momento e na situação, que já tive a ocasião de votar em Lula e em Roberto Campos, em Maluf e Brizola, em Ulisses Guimarães e em Delfim Netto, em Franco Montoro e em Fernando Henrique Cardoso. Não votei em Collor: tomei um Engove e votei no Lula. Na eleição seguinte, não votei em Lula: tomei um Engove e votei em FHC. Mas escolhi sempre conforme o detalhe concreto do que estivesse em discussão e não conforme aquela linearidade rígida de quem é "direitista" ou "esquerdista" como se torce pelo Coríntians ou se crê em Jesus Cristo: de uma vez por todas e por toda a vida. Pois esta coerência só se pode ter nas coisas profundas, duráveis e do coração, e não nessa agitação epidérmica que é a política, onde, sem aviso prévio, de repente as pessoas, idéias e coisas se convertem em seus contrários.
23/12/98

NOTAS:
  1. Talvez por isso os líderes de maior coerência ideológica em bloco, na história do nosso país, foram também os mais estéreis politicamente, como Carlos Lacerda e Luís Carlos Prestes, ao passo que outros deixaram obra mais durável justamente porque se permitiram ajustes e combições "pragmáticas". Voltar
  2. Isso não implica a adesão a nenhuma teoria maluca da "culpa coletiva". O que digo é que nos tornamos culpados, individual e concretamente, pelos custos do progresso, na medida em que aceitamos seus benefícios levianamente, sem gratidão consciente pelas gerações que se sacrificaram por nós. Voltar